quinta-feira, 24 de maio de 2012

Um piano, portos e o século XX


Alessandro Atanes *

I O pianista no mar
Na segunda edição da revista guaiaó (foto), lançada nesta quarta-feira (23), um texto de Flávio Viegas Amoreira, acompanhado por um desenho de Paulo von Poser, trata do filme A lenda do pianista do mar (1998), de Giuseppe Tornatore, e seu protagonista: uma criança encontrada dentro de um navio de cruzeiros internacionais na virada do século XIX para o século XX – e, por isso, recebe o nome de 1900. Adulto, ele se torna o pianista da embarcação. É descrito no texto assim:
Tim Roth, o personagem central leva o nome de 1900, é um anti-Ulysses sem ter referência para onde voltar, além de ser navegante observador de todos os cantos da Terra com a perspectiva do Mar: ele é tão marítimo que perde mesmo sentido do Oceano por estar nele contido naturalmente. Não defronta o mar, torna-se contingente de calmarias e intempéries como um pastor num bosque ou transeunte na Quinta Avenida...
É o que ocorre na cena em que 1900 destrava as rodas do piano para tocar junto a uma tempestade que balança o navio e tudo dentro, enquanto deslizam calmamente pelo salão o piano e seu pianista, “contingente de calmarias e intempéries”. Esse homem que vive às margens da terra firme e suas sociedades, afirma o autor, tem como casa o mar, “símbolo uterino candente” no qual “o porto é um não-lugar que convida ao retorno viajante”. Amoreira lembra-se do poeta grego Giorgos Seféris:
Não sabemos que somos todos marinheiros sem destinoNão sabemos como o porto é amargoQuando todos os barcos partiram
Passamos no texto também pela abertura de Moby Dick (1851), a “catedral literária de Melville” e pelo poema Brisa Marinha, de Stéphane Mallarmé (1842-1898): “A carne é triste, e eu li todos os livros, todos”. Abaixo, a tradução da primeira estrofe feita por Augusto de Campos:
A carne é triste, sim, e eu li todos os livros.
Fugir! Fugir! Sinto que os pássaros são livres,
Ébrios de se entregar à espuma e aos céus imensos.
(leia aqui o poema inteiro)
II Em espanhol
Pela manhã, também ontem, lia textos de El gaucho insufrible (2003), de Roberto Bolaño (1953-2003), reunindo contos como o que dá título ao livro e duas conferências. Na primeira delas, Literatura + enfermedad = enfermedad (Literatura + doença = doença), o autor chileno comenta a versão em espanhol do mesmo Brisa Marinha, feita por Alfonso Reyes:
Creio que Mallarmé está falando da doença [enfermedad], do combate que a doença trava contra a saúde, dois estados e duas potências totalitárias, como quiserem; eu creio que Mallarmé revestida com os trapos do tédio.
Essa observação está no trecho que se chama “Doença e poesia francesa”, no qual, na parte inicial, Bolaño retoma a virada entre os dois séculos:
A poesia francesa, como sabem bem os franceses, é a mais alta poesia do século XIX e de alguma forma em suas páginas e em seus versos se prefiguram os grandes problemas que iriam afrontar a Europa e nossa cultura ocidental durante o século XX e que ainda estão por resolver. A revolução, a morte, o tédio e a fuga podem ser esses temas. Essa grande poesia foi escrita por um punhado de poetas e seu ponto de partida não é Lamartine, nem Hugo, nem Merval, mas Baudelaire. Digamos que se inicia com Baudelaire, adquire sua máxima tensão com Lautréamont e Rimbaud, e finaliza com Mallarmé.
Nota de rodapé
Além do texto de Flávio Viegas Amoreira, guaiaó traz ainda um relato de Søren Knudsen sobre um transatlântico alemão, o SS Windhuk, que, em 1939, início da Segunda Guerra Mundial, chega ao porto de Santos disfarçado sob bandeira japonesa fugindo de um cruzador britânico; e Terra Nova, um conto de Cid Marcus Vasques sobre a chegada de imigrantes portugueses ao porto de Santos no início dos anos 1900. Agitado esse século, não? Acabemos com ele, então, 1900, na cena em que toca piano com o navio sob tormentas e vagas:


* Alessandro Atanes, jornalista, é mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Servidor público de Cubatão, atua na assessoria de imprensa da prefeitura do município.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Dez anos da editora Eloísa Cartonera


Alessandro Atanes *

Fachada da sede da editora, no bairro
de La Boca, em Buenos Aires
Entre 2001 e 2002, a Argentina entra em uma de suas crises mais agudas. Presidentes caíam às pencas, ninguém sabia o que iria acontecer, outros países por menos entrariam em guerra civil. O preço do papel, e da produção de livros, vai para o espaço, o mercado editorial pára. Homens e mulheres perdiam seus trabalhos, a população tomava as ruas em panelaços que ainda repercutem pela Avenida de Maio.

Nesse momento, autores e catadores de papelão (cartón) se unem e dão início à editora de livros artesanais Eloísa Cartonera, com o lema “muito mais que livros”. O processo é simples: o miolo dos livros é impresso em impressoras caseiras ou copiado em xerox e as capas são feitas com o papelão e pintadas uma a uma pelos integrantes do grupo. Nascia aí um fenômeno editorial que se multiplicou por toda a América Latina: as editoras “cartoneras”. Dez anos depois, são mais de 300 títulos publicados, 200 em catálogo, milhares de exemplares distribuídos e quantidades imensas de papelão reutilizadas. Assim eles contam seu início:

Quando começamos com Eloísa Cartonera, não podíamos imaginar um presente tão lindo. Começamos com a crise desses anos; como alguns dizem “somos um produto da crise”, ou “estetizamos a miséria”, nem uma coisa nem outra, somos um grupo de pessoas que se juntaram para trabalhar de outra maneira, para aprender com o trabalho um montão de coisas, por exemplo o cooperativismo, a autogestão, o trabalho para o bem comum, como mobilizador de nosso ser. Nascemos nesta época louca em que temos que viver, como muitas cooperativas e empreendimentos, assembleias, agrupações de bairro, movimentos sociais que surgiram naqueles anos por iniciativa das pessoas, vizinhos e trabalhadores. Aqui estamos.

Em 6 de maio, no diário Página12, ao analisar a retomada da empresa petrolífera YFP pelo governo argentino, o jornalista Mario Wainfeld escreve uma pequena história das crises argentinas nas últimas décadas, “Vinte anos depois”, desde 1991 e a paridade do peso com o dólar, passando pela implantação do neoliberalismo no governo Menem. Wainfeld contextualiza o momento do nascimento da Eloisa Cartonera:

A crise de 2001 aprofundou o desamparo de amplíssimos setores sociais e desnudou a falácia do modelo existente. A resposta social, por múltiplos motivos, teve um tom diferente do que foi primazia nos anos 90. A experiência adquirida, a extrema pobreza e a falta de representatividade política despertaram reflexos comunitários, de profundas (e adormecidas) reminiscências históricas. Proliferaram as organizações de desempregados, as assembleias, comedorias e “roperitos” [cômoda, no caso lugar para trocar roupas] populares, os clubes de trocas. Tiveram viabilidades bem diferentes, possivelmente relacionadas com a profundidade de suas raízes sociais. Mas compartilhavam um ethos solidário e cidadão. Não era imaginável, nem desejável, salvar-se sozinho ou escapar um por um do incêndio.

Julian Gonzalez, um dos que estão com o projeto desde o início, afirma que nada muda para a Eloísa Cartonera com a reorientação do governo federal do neoliberalismo nos 90 para a retomada do controle estatal da YPF em 2012. “Temos nossas preferências políticas individualmente, mas a política da Eloisa Cartonera é o trabalho. Vamos continuar fazendo livros da mesma maneira”.

Se os panelaços e assembleias populares se limitaram a Buenos Aires, o mesmo não se deve dizer do sistema de trabalho da editora. Hoje, são mais de 30 “cartoneras” espalhadas pela América Latina (aqui em Santos são três: Sereia Ca(n)tadora, Edições Caiçaras e Estação Catadora) e algumas também na Europa (Berlim, Paris e Londres). Uma pequena lista mostra a riqueza de nomes: ainda na Argentina temos a Textos de Cartón (Córdoba) e Cartonerita Solar (Neuquén), no Uruguai a La Propia Cartonera, no Chile Animita Cartonera e La Cizarra Cartonera, no Paraguai Felicita Cartonera e Yiyi Yambo, na Bolívia Mandrágora Cartonera, Yerba Mala Cartonera e Nicotina Cartonera, no Equador a Matapalo Cartonera, na Colômbia Patasola Cartonera, no Peru Sarita Cartonera, em El Salvador La Cabuda Cartonera e no México a Santa Muerte Cartonera, La Cartonera, La Ratona Cartonera e Regia Cartonera, entre outras, além das brasileiras Katarina Kartonera, em Florianópolis, Rubra Cartonera em Londrina e a iniciadora da prática no Brasil, a Dulcinéia Catadora, de São Paulo.

Na galeria abaixo, fotografias feitas por mim e Márcia Costa em visita à Eloisa Cartonera em 5 e 7 de maio.






Como muitos brasileiros têm viajado para Buenos Aires, vale deixar aqui uma dica. A Eloísa Cartonera fica no bairro turístico de La Boca, ali onde fica o Caminito, na Rua Aristobulo del Valle, 666, a 100 metros do estádio do Boca Juniors. É só se apresentar a fazer um livros junto com eles.

* Alessandro Atanes, jornalista, é mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Servidor público de Cubatão, atua na assessoria de imprensa da prefeitura do município.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Maria Prestes lança o livro "Meu Companheiro" na Pinacoteca

Em 1952, uma jovem moça nordestina, militante do Partido Comunista Brasileiro, é designada para a segurança pessoal do famoso líder Luiz Carlos Prestes. Foi o início de uma relação que durou até a morte de Prestes, em 1990.

A história dessa mulher, Maria Prestes, com todos os imprevistos, alegrias, dificuldades e vitórias vividas juntamente com seu querido companheiro, proporciona ao leitor uma nova visão do Cavaleiro da Esperança no livro Meu Companheiro: 40 anos ao lado de Luiz Carlos Prestes, cuja terceira edição será lançada nesta sexta-feira (18), às 19 horas, na Pinacoteca Benedito Calixto, em Santos.

Nas palavras da presidenta Dilma Roussef, o livro Meu Companheiro nos apresenta “o ponto de vista de uma mulher talentosa e guerreira sobre um período importante da história do Brasil”.

Lançamento:

Meu Companheiro: 40 anos ao lado de Luiz Carlos Prestes
Autora: Maria Prestes
Pinacoteca Benedito Calixto, Santos, Boqueirão, 18/05, das 19 as 22 hs
3ª EdiçãoVersão bilíngue em português e espanhol
Editora E-papers e Editora Anita Garibaldi

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Galeria de imagens: Eloisa Cartonera

Imagens de livros e da sede da editora artesanal Eloisa Cartonera, em La Boca, Buenos Aires, que iniciou em 2002 devido à crise financeira na Argentina o projeto de produção de livros com capas de papelão (cartón). Hoje já são mais de 30 editoras cartoneras em toda a América Latina e também na Europa. Imagens de Márcia Costa e Alessandro Atanes tomadas em 5 e 7 de maio de 2012.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

“Conheça Santos por meio da Literatura”

Capa da primeira edição de Navios Iluminados,
de Ranulpho Prata, de 1937, uma das obras
apresentadas na oficina
Tem início nesta segunda-feira (14), a oficina “Conheça Santos por meio da Literatura” com o jornalista e mestre em História Social Alessandro Atanes, deste blog. Serão 12 encontros no Fórum da Cidadania e Cultura de Santos, sempre às segundas-feiras, das 19h30 às 21h30. A oficina é gratuita e quem tiver interesse em participar deve se inscrever na sede do fórum, na Estação Sorocabana (Avenida Ana Costa, 340). Mais informações pelo telefone (13) 3221-2034.

Em sua segunda edição, a oficina traz como novidades o módulo “Literatura contemporânea”, com a reunião de autores e editoras artesanais que têm produzido e mobilizado a atual cena literária da cidade. Outra novidade deste ano é a interlocução mais densa com a literatura latino-americana. “Por causa do tema do porto na literatura, venho traduzindo nos últimos anos uma série de autores hispano-americanos, muitos inéditos, e o diálogo entre os textos que tratam de nossa cidade, principalmente o porto, com outros que têm o mar e as viagens como tema pode se transformar também em uma fonte de conhecimentos sobre nossa terra”, comenta Atanes.

Nesse ano, em comemoração aos 10 anos do Fórum da Cidadania, a oficina ganhará também ares de grupo de estudo. A ideia é que os participantes possam eles mesmos criarem textos sobre as questões da cidade. “No ano passado, fizemos a edição de um livro artesanal com textos de sete participantes. Agora, com os 10 anos do Fórum, temos a oportunidade de articular ainda mais as questões literárias com as questões sociais, não de uma forma ilustrativa, mas aproveitando a natureza do texto ficcional para pensarmos a cidade de uma maneira que o Jornalismo e as Ciências Sociais não conseguem fazer. A proposta é que os livros apresentados na oficina sirvam como matéria-prima para que os participantes escrevam sobre a cidade, de forma poética, ou um estudo, o que for de sua preferência”, completa o professor.

A Oficina – O objetivo da oficina é oferecer aos participantes um panorama das obras literárias que têm a cidade e o porto de Santos como cenário, lendo e discutindo textos escritos por autores que aqui vivem e viveram, como Roldão Mendes Rosa, Ranulpho Prata, Narciso de Andrade, Flávio Viegas Amoreira, Alberto Martins, ou que por aqui passaram, como Pablo Neruda, Elizabeth Bishop, Oswald de Andrade, entre outros.

Sobre o autor – Alessandro Atanes é mestre em História Social pela Universidade de São Paulo com a dissertação “História e Literatura no porto de Santos: o romance de identidade portuária Navios Iluminados” (2008, baixe aqui), sobre como o ambiente portuário é descrito pela ficção deste romance de 1937 escrito por Ranulpho Prata e sobre como ela se relaciona com textos de outros escritores sobre o porto de Santos, como Pablo Neruda, Elizabeth Bishop, Blaise Cendrars e Jorge Amado, entre outros. Possui especialização em História e Historiografia e graduação em Comunicação Social pela Universidade Católica de Santos (1995). Premiado pelo Fundo Municipal de Cultura de Santos, publica nos próximos meses um livro sobre suas pesquisas. 

A partir de sua pesquisa, o autor fez o texto-base e as composições do espetáculo “Rota Literária: um passeio poético pelo porto de Santos”, encenado em uma escuna que cruza o canal do estuário.

É colunista do site PortoGente desde 2005, onde produz semanalmente textos sobre as relações entre História e Literatura, e um dos criadores e editor do blog Revista Pausa, de literatura e artes.

Em agosto de 2011, apresentou no Sesc Santos a conferência “Porto – Um Portal Poético. O tema do mar e da viagem na poesia ibero-americana a partir do porto de Santos” com traduções de Roberto Bolaño, Antonio Cisneros, César Vallejo, Carlos Oquendo de Amat, Javier Heraud, Óscar Limache e José Agustín Goytisolo, sempre com o mar e as viagens como tema, dos quais três foram escolhidos para serem impressos nos guardanapos do Sesc usados durante a Bienal de Dança em setembro. Será lida ainda uma nova versão para o poema “Santos Revisitado (1927-1967)”, de Pablo Neruda (Chile), que fala de sua passagem pelo Porto de Santos.

É o autor da tradução para o português de “Voo de identidade”, do poeta peruano Óscar Limache, publicada em edição bilíngue artesanal pela editora Sereia Ca(n)tadora.

Servidor público do município de Cubatão, atua no Departamento de Imprensa da Prefeitura.

Programação:
Módulo 1 – Introdução ao tema: questões gerais sobre o estudo das relações entre História e Literatura
Módulo 2 – O ciclo da literatura de identidade portuária - Um panorama sobre as obras que são ambientadas no Porto de Santos
Módulo 3 – O horror vem pelo porto
Módulo 4 – Imigrantes na cidade: As travessias e destinos dos personagens na literatura portuária entre Portugal e Espanha e os portos de Santos e Buenos Aires. Literatura hispano-americana sobre portos e viagens.
Módulo 5 – Os poemas de chegada: o que escreveram sobre Santos escritores que chegaram ao Brasil pelo porto da cidade
Módulo 6 – Mas o que narram aqueles que ficam? As imagens poéticas de autores que viveram ou vivem em Santos
Módulo 7 – A geografia literária da cidade portuária: as ruas da cidade de Santos em mapas do território da ficção portuária desenhados a partir dos itinerários e movimentos dos personagens da ficção
Módulo 8 – Relatos de viagem
Módulo 9 – Literatura e cinema: a narrativa cinematográfica do poema “Fugindo ao cativeiro”, do livro “Poemas e Canções” (1908), de Vicente de Carvalho
Módulos 10 – Literatura contemporânea, o cenário de Santos.
Módulo 11 – Os novos nomes da poesia e narrativa de Buenos Aires e Montevidéu.
Módulo 12 – Considerações finais sobre a literatura produzida em Santos ou sobre a cidade, relacionando os textos produzidos na oficina com as obras analisadas durante os módulos.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Literatura argentina na era digital

Alessandro Atanes, em Buenos Aires

Na última sexta-feira (4), durante a Feira do Livro de Buenos Aires (19 abril-7 de maio), foram apresentados livros da editora independente Milena Caserola, que chega aos cinco anos com mais de 130 títulos. Embora tenha havido algum problema na organização, a ideia divulgada na programação era que qualquer um que chegasse com um pen drive, celular, laptop ou qualquer outro dispositivo com memória pudesse baixar livros da editora no formato em PDF.

Apesar do problema técnico (ninguém pôde baixar nada), a mesa “Milena Caserola: jovens da nova narrativa argentina” contou com a participação de novos autores que falaram de seus livros e leram seus textos para o público junto à exposição-manifesto “20 fatos que estão mudando a leitura na era digital”, apresentada da seguinte maneira:

A leitura está mudando. Híbridos entre videojogos e livros, escritores que realizam trailers de suas obras, desconhecidos que se tornam celebridades através da autopublicação, redemoinhos de debates ao redor dos direitos de autor, a intimidade transformada em espetáculo...

A internet transformou nossas vidas e também nossas noções e costumes na hora de enfrentar um texto.
Um dos fatos é a difusão nesse “Big Bang de estímulos” que é a Internet, “um parque de diversões digital no qual a literatura procura seu espaço e ensaia como atrair novos leitores” com estratégias como o trailer de livro e campanhas de estímulo à leitura com fotos de celebridades lendo ou que peçam para que as pessoas não durmam com quem não tenha uma biblioteca em casa. Poderia acrescentar a estas estratégias o lançamento no sábado passado dos Desaforismos de Flávio Viegas Amoreira pela Edições Caiçaras, uma coletânea de textos publicados originalmente no Facebook.

Coordenada por Matias Reck, editor da nova narrativa argentina, a conversa contou com a participação e leitura de Gonzalo Unamuno, Alejandro Soifer, Enzo Maqueira, Marcos Almada, Jorge Luis Fernández e Sagrado Sebakis, entre outros.

Esse mundo da leitura na era digital, entre outros temas sobre os quais o colunista se debruçará em outra ocasião, está bem caracterizado na leitura feita por Sagrado Sebakis (pseudônimo de Sebastian Kirzner): o último capítulo de sua trilogia Gordo, romance cujos parágrafos são divididos em blocos como os textos de internet. Perceba também, leitor, a enumeração à moda de Jorge Luis Borges que Roberto Bolaño também praticou (ver aqui):

Sagrado Sebakis lê o último capítulo de Gordo na Feira do Livro de Buenos Aires
Mais de 160 quilos sobre meu corpo, o peso exato do Drum and Bass, + 160, sou o outro Fat Boy Orange. Sou este final, esta língua, este último abecedário habitável.

Onde estou 11.7? Onde estou 14.2? Onde estou 21.8? Onde estou 12.3? 17.9? 3.1? 6.4? Estou carregado de valores informais. Várias coisas para dizer a respeito: A – Quando era pequeno, na escola, me vi enfrentando meninos que comiam giz de cera... e ainda com o azul, ou o verde ou o vermelho entre os dentes, me juravam: “Pode comer! Diz na caixa...” Não! Idiota! Não se pode comer, na caixa diz que “Não é tóxico”, isso está a dez quilômetros de que mande colocar na boca, pedaço de australopithecus afarensis. B – Toda vez que alguém usa a fonte Comic Sans um designer gráfico morre. C – No capítulo 19 da quinta temporada de The Office (eua), chamado The Golden Ticket, Michael pergunta a Dwight: “Para que faz um diário secreto?” E Dwight responde: “Para escrever coisas que não quero que meu computador saiba”. Ç – Sempre sonhei com que injetassem recheio de sonho de valsa direto no meu organismo. D – Sempre sonhei em ficar preso em uma loja de supermercado da rede COTO durante pelo menos três dias e comer absolutamente tudo, inclusive comer e correr ao mesmo tempo. E – Pensei que alguém tinha falado comigo, mas não, era o computador. F – O melhor cruzamento de animais fantásticos é de você comigo. G – Te repito pela última vez: Eu não sou outro você. H – Por respeito ao outro, por favor: “TENHA DOR EM SILÊNCIO”. I – Um amigo me disse: “Os velhos imbecis vêm de imbecis descarados”. J – Hoje me deram a melhor desculpa que jamais ouvi para que alguém não me visse: “Desculpa não poder me encontrar contigo, é que estou com uma amiga que não pode caminhar”. K – Os magros ocultam um segredo de mim. L – Aquilo que te dá poder, de mim tira. M – Zero a zero, todos perdem. N – Dormir não é um ato do corpo, é uma metáfora social. O – Sim, nem diga, foram anos duros paca, eu fiz o Mergulhão Digital entre 2015 e 2018. P – Eu disse a ela: “Mas está cheio de gente!” Ela me disse: “Eu sei chupar uma rola sem fazer barulho”. Q – Nunca se esqueça que este também é um órgão sexual e uma zona erógena. R – Minha namorada foi para a guerra e não sei quando volta. S – Não é que não goste, é que tenho uma coisa com os mamilos retraídos. T – Preciso de espaço, meu espaço, ou me ouvir devagar, despacio, ou ir para o espaço. U – Contei para a minha mãe que estou dormindo com uma garota que se esquenta se grudando em mim... ela disse algo como: “Hum, não dói?” ao que respondi: A verdade, mãe, é que nesse momento costumo estar tão drogado que nem me dou conta. V – Há duas coisas de que gosto na vida: Agarrar com a mão o pão lactal e você. W – Uma vez um jornalista perguntou para Roberto Bolaño: “Por que o senhor é sempre do contra?”. E ele respondeu: “Eu nunca sou do contra”. X – Gostaria de ter uma mulher que me acompanhe nas horas do dia em que fico acordado e uma que me acompanhe nas horas da noite em que fico acordado. Y – Que dia bom para não ir ao colégio!

Z – Somos como duas festas... duas festas terminando.

Leia mais sobre o trabalho do autor em www.wix.com/sebakis/sagrado.
Conheça o trabalho de editoras e distribuidoras independentes argentinos e latino-americanas em www.elasunto.com.ar e www.la-periferica.com.ar.

Referência:
Sagrado Sebakis. Gordo. Buenos Aires: Milena Caserola, 2011.

Alessandro Atanes, jornalista, é mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Servidor público de Cubatão, atua na assessoria de imprensa da prefeitura do município.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

"Desaforismos", novo livro de Flávio Viegas Amoreira pela Edições Caiçaras

Alessandro Atanes

Flávio Viegas Amoreira, deste blog, mostra sua face oscarwildeana com o lançamento de "Desaforismos", em 5 de maio, às 17 horas, na Pinacoteca Benedito Calixto (Santos). A publicação sai pela Edições Caiçaras.

Pescados pelo editor Márcio Barreto no mar bravio do facebook, seus aforismos fazem da literatura uma ponte entre o desencanto e a salvação para quem sabe e sente em demasia. "Capaz de levar-nos do riso à perplexidade, Flávio Viegas Amoreira nos surpreende com seus comentários refinados, sua erudição verborrágica e seu coração atlântico", conta o criador da editora.

Neste livro, vemos o humano, o demasiado humano e o além do homem se transbordando em vastos pensamentos através da arte que o personifica tão bem - a literatura muitas vezes fragmentada, reinventada, deglutida, gritada e sussurrada pelos corredores da criação. Como diria Flávio: "Amo demais, percebo demais o mundo e as pessoas, sinto uma melancolia que adoço com vinho de sempre...". E o mural do Facebook foi escolhido pelo autor para suas observações e intervenções.

Dono de uma personalidade amada por uns e odiada por outros, Flávio é capaz de nos enternecer, fazer pensar, sorrir e, principalmente, questionar o status quo vigente: "Somos mentiras sordidamente urdidas com esmero de artesão, nunca saímos de nada pensando transitar no que chamamos vida". Por outro lado, é capaz de aceitar e entender como ninguém a profundidade abissal do sentimento: "Perder um amor não é nada perto de perder a vontade de sonhar novos amores...".

Assim, pouco a pouco, vamos conhecendo Flávio Viegas Amoreira, suas nuances, opiniões sobre a vida, a arte, o cinema, os grandes pensadores, sua referências artísticas, sonhos, uma verdadeira máquina de emoções disparando ao gosto da vida. O livrro acompanha, à guisa de pequenos prefácios, declarações de diversos artistas sobre Amoreira, tais como Gilberto Mendes, Edson Amancio, Marcelo Ariel, Wagner Parra, Guhga Benício, Madô Martins, Regis Bonvicino, Leopoldo Pachco, Euler Santi, Marcos Piffer, Domingos Meira, Talles Machado Horta, Luiz Afonso Costa de Medeiros, Fabricio Lopez, Cláudio Nigro e o autor desta resenha.

Como escreveu Umberto Eco, "não há nada de menos definível que o aforismo". O termo vem do grego "coisa colocada à parte para uma oferenda", chega à sentença concisa e à "breve máxima que exprime uma norma de vida ou uma sentença filosófica". Conta o autor italiano que Alex Falzon, ao editar os aforismos de Oscar Wilde, definiu o termo como "uma máxima em que não conta apenas a brevidade da forma, mas a argúcia do conteúdo". Aí já estamos mais próximos dos desaforismos de Flávio (ao que se soma também o sentido de desaforo), cunhados à quente no mundo instantâneo on line e agora materializados em livro.  

O autor
Escritor, crítico literário e jornalista; Flávio Viegas Amoreira já lançou dez livros entre poesia, contos e romance. Além da REvista Pausa, colabora com diversos jornais, revistas literárias e sites. Faz parte da antologia Geração Zero Zero, com seleção de Nelson de Oliveira, com autores  autores de vanguarda surgidos no começo do século. Foi traduzido e adotado por universidades européias e norte-americanas. Fundador com Gilberto Mendes do “Fórum Santos Cultural”, de resgate das tradições de vanguarda e cultura do Litoral Paulista e do “sentimento atlântico do mundo”.

A editora
A Edições Caiçaras é uma pequena editora independente artesanal inspirada nas cartoneras da América Latina, principalmente na Sereia Ca(n)tadora de Santos e na Dulcinéia Catadora de São Paulo. Nasceu da dificuldade homérica e labiríntica em publicar em uma editora convencional. É uma forma de reavivar o ideal punk do “faça você mesmo”, incentivando a auto-gestão e o uso da habilidade manual, algo que está se perdendo em nossa sociedade tecnocrata. Para a filosofia da Edições Caiçaras, mais do que um caráter social, interessa ousar na forma e no conteúdo. Na forma é um aprimoramento das técnicas das cartoneras - os livros são feitos com capa dura, costurados com sisal e presos com detalhes em bambu, e no conteúdo, prioriza um diálogo profundo com a Internet e com as literaturas locais do Brasil.

Serviço
Desaforismos - Flávio Viegas Amoreira
Edições Caiçaras
Lançamento:
Pinacoteca Benedito Calixto
05 de maio - 17 as 20 hs

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