Alessandro Atanes *
I O pianista no mar
Na segunda edição da revista guaiaó (foto), lançada nesta quarta-feira (23), um texto de Flávio Viegas Amoreira, acompanhado por um desenho de Paulo von Poser, trata do filme A lenda do pianista do mar (1998), de Giuseppe Tornatore, e seu protagonista: uma criança encontrada dentro de um navio de cruzeiros internacionais na virada do século XIX para o século XX – e, por isso, recebe o nome de 1900. Adulto, ele se torna o pianista da embarcação. É descrito no texto assim:
Tim Roth, o personagem central leva o nome de 1900, é um anti-Ulysses sem ter referência para onde voltar, além de ser navegante observador de todos os cantos da Terra com a perspectiva do Mar: ele é tão marítimo que perde mesmo sentido do Oceano por estar nele contido naturalmente. Não defronta o mar, torna-se contingente de calmarias e intempéries como um pastor num bosque ou transeunte na Quinta Avenida...É o que ocorre na cena em que 1900 destrava as rodas do piano para tocar junto a uma tempestade que balança o navio e tudo dentro, enquanto deslizam calmamente pelo salão o piano e seu pianista, “contingente de calmarias e intempéries”. Esse homem que vive às margens da terra firme e suas sociedades, afirma o autor, tem como casa o mar, “símbolo uterino candente” no qual “o porto é um não-lugar que convida ao retorno viajante”. Amoreira lembra-se do poeta grego Giorgos Seféris:
Não sabemos que somos todos marinheiros sem destinoNão sabemos como o porto é amargoQuando todos os barcos partiramPassamos no texto também pela abertura de Moby Dick (1851), a “catedral literária de Melville” e pelo poema Brisa Marinha, de Stéphane Mallarmé (1842-1898): “A carne é triste, e eu li todos os livros, todos”. Abaixo, a tradução da primeira estrofe feita por Augusto de Campos:
A carne é triste, sim, e eu li todos os livros.
Fugir! Fugir! Sinto que os pássaros são livres,
Ébrios de se entregar à espuma e aos céus imensos.
II Em espanhol(leia aqui o poema inteiro)
Pela manhã, também ontem, lia textos de El gaucho insufrible (2003), de Roberto Bolaño (1953-2003), reunindo contos como o que dá título ao livro e duas conferências. Na primeira delas, Literatura + enfermedad = enfermedad (Literatura + doença = doença), o autor chileno comenta a versão em espanhol do mesmo Brisa Marinha, feita por Alfonso Reyes:
Creio que Mallarmé está falando da doença [enfermedad], do combate que a doença trava contra a saúde, dois estados e duas potências totalitárias, como quiserem; eu creio que Mallarmé revestida com os trapos do tédio.Essa observação está no trecho que se chama “Doença e poesia francesa”, no qual, na parte inicial, Bolaño retoma a virada entre os dois séculos:
A poesia francesa, como sabem bem os franceses, é a mais alta poesia do século XIX e de alguma forma em suas páginas e em seus versos se prefiguram os grandes problemas que iriam afrontar a Europa e nossa cultura ocidental durante o século XX e que ainda estão por resolver. A revolução, a morte, o tédio e a fuga podem ser esses temas. Essa grande poesia foi escrita por um punhado de poetas e seu ponto de partida não é Lamartine, nem Hugo, nem Merval, mas Baudelaire. Digamos que se inicia com Baudelaire, adquire sua máxima tensão com Lautréamont e Rimbaud, e finaliza com Mallarmé.Nota de rodapé
Além do texto de Flávio Viegas Amoreira, guaiaó traz ainda um relato de Søren Knudsen sobre um transatlântico alemão, o SS Windhuk, que, em 1939, início da Segunda Guerra Mundial, chega ao porto de Santos disfarçado sob bandeira japonesa fugindo de um cruzador britânico; e Terra Nova, um conto de Cid Marcus Vasques sobre a chegada de imigrantes portugueses ao porto de Santos no início dos anos 1900. Agitado esse século, não? Acabemos com ele, então, 1900, na cena em que toca piano com o navio sob tormentas e vagas:
* Alessandro Atanes, jornalista, é mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Servidor público de Cubatão, atua na assessoria de imprensa da prefeitura do município.

Em 1952, uma jovem moça nordestina, militante do Partido Comunista Brasileiro, é designada para a segurança pessoal do famoso líder Luiz Carlos Prestes. Foi o início de uma relação que durou até a morte de Prestes, em 1990.


Flávio Viegas Amoreira, deste blog, mostra sua face oscarwildeana com o lançamento de "Desaforismos", em 5 de maio, às 17 horas, na Pinacoteca Benedito Calixto (Santos). A publicação sai pela Edições Caiçaras.